O Conto da Aia, de Margaret Atwood

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Resenha publicada pela primeira vez em 09 de Outubro de 2019, quando o Projeto era atualizado no blog Limonada. 


Em 1985, a canadense Margaret Atwood publicava pela primeira vez sua distopia O Conto da Aia, certamente sem imaginar que mais de trinta anos depois, o livro  ainda  estaria entre os mais vendidos em diferentes países, sendo inclusive adaptado para uma série de TV produzida pelo streaming americano Hulu.

A narrativa do livro é feita por Offred, ou June, o que é um ponto interessante de ser ressaltado, visto que todo o enredo é pautado em cima da não liberdade de expressão das mulheres, findada após um golpe de Estado, realizado por homens de cargos poderosos aliados aos chamados Filhos de Jacó, que pôs fim aos Estados Unidos da América transformando-o na República totalitária, patriarcal e voltada para a teocracia, Gilead. 

Os Filhos de Jacó, fundadores do regime, além de possuírem altos cargos em instituições de poder da antiga América, eram extremistas religiosos unidos em uma conspiração, que a partir das suas interpretações bíblicas, viam as justificativas para seus planos de "salvação" de um país que segundo eles, estava doente ao permitir uniões entre adúlteros, homossexuais, e com famílias cujas esposas que ao contrário da tradição, passavam seus dias trabalhando e deixando as crianças longe de seus cuidados maternos, culpando-as, inclusive, pela drástica queda da taxa de natalidade que abrangeu o país. Após o planejado golpe, as mulheres passaram a ser demitidas de seus empregos, ocorrendo também o bloqueamento de suas contas bancárias, dadas aos seus maridos, e em pouco tempo, o suficiente para que as pessoas entendessem o que estava acontecendo e tentassem deixar o país, a Constituição Estadunidense deixou de ser válida e as fronteiras foram bloqueadas. A implantação do regime contou também com um exército próprio nomeado como Guardiões, responsáveis por reprimir quaisquer manifestações contrárias, e na já instituída Gilead, manter a ordem e o funcionamento adequado da República, realizando torturas e o assassinato de ativistas políticos, cientistas, religiosos com crenças diferentes e desertores. 

Consequência das guerras que se sucederam diante da queda constitucional, a nova República nomeou locais com poluição tóxica de Colônias, áreas para onde mulheres traidoras, sem habilidades "úteis"  procriação (Aias) ou cuidados caseiros (Marthas)  são enviadas para que as tornem limpas a partir de seu trabalho escravo. 

Mas afinal de contas, em que parte da narrativa temos a inclusão de Offred? Cada Comandante — os atuais governantes da República, antigos Filhos de Jacó  possui em sua casa uma Aia, mulheres férteis que são estupradas em um ritual "bíblico" por seus respectivos Comandantes para que engravidem e deem a luz filhos que serão deles e de suas Esposas, sendo em seguida mandadas para outros postos (maneira como são chamadas as residências em que servem). Tais mulheres possuem a completa perda da própria identidade, como é o caso de Offred, que deixa de ser chamada por seu próprio nome, June, para ser Of-Fred (em tradução livre, do Fred, seu Comandante), além de andarem com um uniforme vermelho, usado para que sejam facilmente identificadas, e uma touca branca que as impede de enxergar os lados. Apesar de tal medida não se restringir somente as Aias, em Gilead as mulheres também são proibidas de ler e consequentemente, escrever, e nenhum tipo de mídia ou comunicação é utilizada pela população  salvo o uso pessoal, e muitas vezes fora das próprias leis, dos Comandantes.

Em sua narrativa, Offred nos leva de volta ao passado antes de Gilead e aos momentos em que pouco a pouco, o país perdia sua força sem que cogitassem o que estava por trás daquilo, além de relembrar os momentos tenebrosos em que o regime totalitário foi implantado, com seus planejados métodos de silenciamento dos que ali permaneceram, das constantes problemáticas da vida como Aia e de suas próprias observações. O Conto da Aia é um livro muito bem escrito e que infelizmente, ganha força na atualidade pela semelhança dos discursos feitos mundo a fora com os que levaram Margaret Atwood à sua idealização.

*:・゚✧*:・゚✧ POR QUE LER UMA DISTOPIA? *:・゚✧*:・゚✧

Acredito que a única justificativa seja o gosto por esse tipo de enredo. Afinal de contas, pode servir como gatilho para algumas pessoas. No entanto, vejo em O Conto da Aia o potencial ideal para quem quer conhecer o gênero. 

*:・゚✧*:・゚✧ POR QUE NÃO LER "O CONTO DA AIA"? *:・゚✧*:・゚✧

Como disse acima, se você possui sensibilidade para alguns assuntos, é bom pesquisar mais afundo antes de lê-lo, mas fora isso, não existem motivos pelos quais eu não o recomendaria para alguém. 

Pra quem é dos filmes: em 1990 foi lançado A Decadência de uma Espécie, que não fez sucesso no momento, mas foi a primeira adaptação para as telas de O Conto da Aia. 
Pra quem é dos livros: a editora Rocco lançou a continuação intitulada Os Testamentos, sendo que nesta Offred não será mais a narradora. 
Pra quem é das entrevistas: para o El País, quando questionada se ainda se surpreende com o sucesso da obra, a resposta de Margaret Wood foi que "Sua popularidade depende daquilo que está acontecendo no mundo em geral. Nas últimas três eleições nos Estados Unidos, ela subiu, mas nos anos noventa as pessoas diziam: "É coisa do passado, nada disso aconteceu, a Guerra Fria terminou, vamos às compras". Além disso, não fez tanto sucesso quando foi lançado."
Bônus: com a estreia da série e o novo sucesso do livro, a autora também escreveu um novo prefácio para ele, disponível no site do El País, que nomeou como "Maldita Profecia." 
Pra quem é dos textos: no Querido Clássico, falei um pouco mais sobre a obra. 
Por fim, infelizmente, os exemplos usados na obra são reais: a autora, em diversas entrevistas inclusive no novo prefácio citado acima , fala sobre como fatos levaram-na à criação de Gilead. Desde o nazismo com sua perda da identidade e uniformes de identificação, a exemplos mal sucedidos do comunismo e do movimento feminista dos Estados Unidos da América na década de 1980, quando houveram tentativas de silenciar as mulheres. 

Em um quote: 

"Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta. Havia matérias nos jornais, é claro. Corpos encontrados em valas ou na floresta, mortos a cacetadas ou mutilados, que haviam sido submetidos a degradações, como costumavam dizer, mas essas matérias eram a respeito de outras mulheres, e os homens que faziam aquele tipo de coisas eram outros homens. Nenhum deles eram os homens que conhecíamos. As matérias de jornais eram como sonhos para nós, sonhos ruins sonhados por outros. Que horror, dizíamos, e eram, mas eram horrores sem ser críveis. Eram demasiado melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão de nossas vidas."

 

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